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Prêmio julgado em presídios escolhe distopia sobre censura aos livros.

A Biblioteca do Censor de Livros, de Bothayna Al-Essa, venceu uma seleção feita por quase 200 leitores encarcerados nos Estados Unidos.

Prêmio julgado em presídios escolhe distopia sobre censura aos livros.

Um prêmio literário americano colocou leitores que normalmente ficam fora das principais conversas culturais no centro da decisão. A Biblioteca do Censor de Livros, da escritora kuwaitiana Bothayna Al-Essa, venceu a terceira edição do Inside Literary Prize, escolha realizada exclusivamente por pessoas encarceradas. O resultado foi anunciado em 20 de agosto, após meses de leitura, encontros e discussões coletivas. A organização do prêmio confirmou a vitória e os dados da votação.

Quase 200 jurados participaram dentro de 11 unidades prisionais localizadas em seis estados americanos. Mais de 1.650 exemplares foram distribuídos durante o processo. Em vez de críticos profissionais ou integrantes da indústria editorial, foram esses leitores que analisaram os finalistas e definiram o vencedor.

Uma distopia sobre o perigo de interpretar

O romance acompanha um funcionário de um regime autoritário encarregado de identificar livros considerados perigosos. Ele deve examinar os textos sem interpretá-los, porque sua função não é apenas controlar publicações, mas também limitar a imaginação. O trabalho começa a mudar quando personagens literários ocupam seus sonhos e exemplares proibidos se acumulam em sua casa.

Gradualmente, o censor se aproxima de uma rede clandestina formada por pessoas que tentam preservar livros, memória e liberdade intelectual. Referências a obras como 1984, Fahrenheit 451, Alice no País das Maravilhas, Pinóquio e Zorba, o Grego integram a narrativa. A premissa combina sátira, fantasia e distopia para discutir quem pode decidir quais histórias uma sociedade terá permissão de conhecer. A descrição da edição brasileira confirma esses elementos sem revelar o desfecho.

A edição original em árabe foi publicada em 2019. A tradução inglesa de Ranya Abdelrahman e Sawad Hussain saiu pela Restless Books em 2024 e chegou à final do National Book Award de literatura traduzida no mesmo ano. Foi a partir dos finalistas daquele prêmio que a seleção do Inside Literary Prize foi organizada.

Como funciona a escolha

Além do livro vencedor, os jurados avaliaram Ædnan, de Linnea Axelsson, All Fours, de Miranda July, Martyr!, de Kaveh Akbar, e My Friends, de Hisham Matar. A lista havia sido definida por um comitê que reuniu leitores encarcerados, escritores e bibliotecários de departamentos penitenciários. A National Book Foundation publicou os cinco títulos e explicou o processo de seleção.

O prêmio foi criado em 2023 por organizações ligadas à literatura, à justiça e ao acesso a livros. Em três edições, mais de 560 pessoas de 35 prisões participaram como juradas. A proposta não é premiar livros escritos necessariamente sobre cárcere, mas reconhecer a capacidade crítica de leitores cuja participação no debate público costuma ser limitada.

Durante a escolha de 2026, os participantes receberam os títulos, fizeram debates em grupo e tiveram encontros com autores e finalistas de premiações anteriores. A cerimônia está marcada para 3 de setembro, em Nova York, com mensagens gravadas por integrantes do júri exibidas durante o evento.

Livro está disponível em português

Leitores brasileiros não precisam recorrer à tradução inglesa. A obra foi publicada no Brasil pela Editora Instante em 2025 com o título A Biblioteca do Censor de Livros. A versão de 224 páginas foi traduzida diretamente do árabe por Jemima Alves e está disponível em formatos impresso e digital. A editora informa que esta é a primeira obra de Bothayna Al-Essa lançada no país.

O novo prêmio não transforma automaticamente o romance em leitura adequada para todos os gostos. Ele acrescenta, porém, uma camada especialmente coerente com a trama: uma história sobre censura e liberdade foi escolhida por leitores que discutiram literatura em espaços marcados pela restrição. O resultado amplia a visibilidade da autora e convida o público brasileiro a conhecer uma distopia que pergunta o que desaparece quando alguém controla não apenas os livros, mas também as interpretações possíveis.

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